segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Ensaio sobre a Mentira

Com o tempo, a gente aprende, na raça, uma verdade que parece muito óbvia: As pessoas mentem. Eu, particularmente, nunca acreditei em contos de fadas: "O príncipe", pensava eu, no altos dos meus primeiros anos, "ele mora num reino muito distante. Eu nunca vi um príncipe, acho que ele não passaria aqui perto de casa, né?". E a madrasta malvada? Aquilo, pra mim, era um absurdo! Se ela é madrasta, ela e quase mãe da princesa... como ela poderia querer o mal da princesa? Como ela mandaria matar a moça? Na minha cabeça, era incabível.

No final, eu desacreditava os contos de fadas pelos motivos errados. Conforme os anos passaram, eu aprendi que, na vida, os príncipes encantados até chegam a aparecer. só que eles normalmente vem na forma de sapo! Mandam 20 mensagens por dia no seu celular, se irritam quando você quer ver suas amigas, querem saber onde você está o tempo todo... Enfim, eles existem, mas a gente não quer muito saber deles no final das contas. Acabamos mesmo correndo atrás do Lobo Mau, que quer nos comer ali mesmo, na floresta. Ou do Coelho Branco, que nos leva a conhecer o "país das maravilhas". Pessoas, na verdade, ousadas o suficiente pra nos tirar da nossa zona de conforto, e nos mostrar os caminhos excitantes que a vida pode ter. Isso é verdade.

Agora, a madrasta? Aquela pessoa que mente, engana, inveja você, apesar de você confiar nela? Dessa existem montes. Pessoas que se aproximam por interesse... atuam, traem. Desrespeitam o outro em benefício próprio de diversas formas. Elas existem e estão em qualquer lugar, onde você menos espera conhecer alguém que não seja de confiança. - Na escola, na faculdade, no trabalho, na academia, no seu prédio... E hoje em dia, o acesso está ainda mais fácil, por que elas estão no Facebook também - um clique de distância. E isso, apesar de ser uma verdade óbvia, que atire a primeira pedra aquele que não aprendeu sobre o mau caráter das pessoas na marra, apanhando. Caindo ao menos uma vez nalguma armadilha deixada por uma dessas pessoas, que você achava que podia confiar.

Eu sei o quanto dói descobrir que Papai Noel não existe. Nesse ponto da vida, as pessoas normalmente passam por um momento importante de formação de personalidade, no qual rola um surto inicial. Tipo: "E agora? Ou eu também começo a mentir, ou não vou sobreviver nesse mundo!". Desse momento em diante, existem 3 caminhos a serem tomados: A pessoa pode se tornar uma mentirosa também, e passar a bolar armadilhas à sua volta, de modo a criar outros mentirosos; pode omitir quem ela realmente é, escondendo uma parte de si do mundo; ou ainda, pode continuar a ser honesta, usando a mentira em momentos de pouca relevância na vida. (Sim, colega... a partir daqui, todo mundo vai mentir! Que atire a primeira pedra quem descobriu a mentira mas nunca usou na vida!).

Bom, na minha opinião, pessoas que escolhem a mentira como modo de vida, optam também por frear a sua evolução como ser. Elas pensam que a mentira vai solucionar suas preocupações. Ou que vai corrigir seus erros. Acham que mentir é mais fácil do que pedir desculpas. E daí se atém a essa resposta fraca e vazia até perceber, tarde demais, que essa não era a solução. Infelizmente, isso já faz parte da pessoa, e ela não sabe mais mudar. Mas cedo ou tarde ela percebe que a mentira não resolve. E que em alguns casos, nem a verdade resolve.

A verdade, pura senhora, imaculada e bela, não merece ser tão louvada quanto de fato é. A verdade machuca, fere. Ela é uma fera que deve ser tratada com muito cuidado e bom senso pois, quando manipulada ou usada para o mal, pode ser muito perigosa. Quando a sua vida é um "livro aberto", você torna públicas todas as suas ações, sem medo de julgamentos. Infelizmente, publica também um convite a qualquer um que queira rasgar ou rabiscar suas páginas. E como você vai se defender, estando as suas páginas escancaradas e atadas por mãos mal intencionadas?

Isso nos leva ao segundo caminho, a omissão. Pessoas que optam por omitir, não estão no grupo dos mentirosos, pois "omitir não é mentir". Assim, elas se livram do peso moral que a mentira carrega perante os os olhos moralistas da sociedade. Então, vamos usar de novo a metáfora do "livro aberto" pra mostrar o quanto essa escolha pode ser perigosa: Quando alguém omite, sua vida continua sendo um livro aberto para as pessoas, por que ela não pode contradizer aquilo que está escrito lá. Daí, ao invés de fechar o livro, ela escreve por cima do que tem lá, rabisca, cola imagens mais bonitas, para que ninguém saiba o que realmente acontece. Na prática, essas são as pessoas que escondem suas fraquezas por trás de máscaras - roupas bonitas, corpo bonito, postura rígida ou agressiva, dinheiro, excesso de felicidade, etc. Colam nas páginas vidas que não condizem com a realidade de quem são.

Porém, a verdade ainda está lá, escondida, mas disponível a quem quiser saber. Há quem veja essas páginas surradas e não questione. Mas também há quem perceba a farsa, e consiga ler o que tem por trás. Esse alguem pode ou não abusar daquilo que enxergou nele, as fraquezas dele. E o pior, ele não saberá lidar com aquilo quando for usado contra ele mesmo. Isso por que, depois de certo tempo, as páginas da vida da pessoa ficam tão rebocadas e confusas que ele mesmo sabe discernir o que tinha ali antes. Ele passa a viver também uma mentira, por que já não sabe mais quem realmente é. Essa é a escolha que, infelizmente, grande parte das pessoas acaba fazendo.

E, por fim, há os corajosos, que preferem tentar manter o máximo de honestidade e integridade ao longo de suas vidas. A esses, ofereço apenas a minha reflexão (não chamarei de conselho, pois, se eu realmente tivesse a fórmula da felicidade, não estaria aqui refletindo, estaria lá fora ficando rica!). Pra conseguir sobreviver nesse mundo, a única maneira é cuidar do próprio livro. Da própria vida. Aprender quem somos e o valor que temos. Conhecer e valorizar as nossas forças, e conhecer e trabalhar as nossas fraquezas. Aprender quem somos é fundamental para que, mesmo as suas fraquezas, sejam a sua maior força, pois quando tentarem usá-las contra você, saberá lidar com isso com maestria.

Quando seu livro estiver reformado, revisado, limpo e encapado, você saberá reconhecer outro livro bem feito, certo? Quando a pessoa está em paz consigo mesma, sabe enxergar mais claramente alguém que não está tão bem assim. E esse alguém, se você deixá-lo entrar profundamente em suas defesas, provavelmente vai bagunçar tudo o que você arrumou. Daí, sua reação será bem parecida com a da sua mãe, quando você entra em casa em dia de faxina: "Não vai pisar com esse pé sujo no chão, menino! Acabei de passar pano!".

Você não vai deixar ninguém estragar algo por que trabalhou tanto, cuidou tão bem, e tanto preza. Isso se chama auto-estima. Amor próprio. A sua estima define até que ponto vai a sua abertura para o mundo. Não é preciso mentir. Não é preciso omitir. Basta ser você mesmo, atendo-se a seus principios e valores em primeiro lugar - ou seja, sendo honesto consigo mesmo. E limitar algumas verdades mais profundas a pessoas que realmente valham a pena.

Recomendo essas atitudes como um modo de tentar ser feliz sinceramente. Essa foi a forma, mas coerente que encontrei de ser franca e aberta, mas me proteger ao mesmo tempo. E conseguir me libertar um pouco do vício que é contar mentiras! É claro, quando a sua amiga grávida te perguntar se ela tá muito gorda, você não precisa dizer pra ela que ela está parecendo uma leitoa de vestido. Tem mentiras que são saudáveis. Mas também não diga que ela está radiante, ok? Ninguém mais cai nessa!

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